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As Crônicas de Thaalavar

Capítulo 1 - A nova alvorada de Valíria

Parte 1 — Rumo ao verde infinito

     Quando as Catorze Chamas entraram em erupção e os céus choveram vidro e cinzas vulcânicas sobre a Península Valiriana, poucas famílias conseguiram escapar do cataclismo. Entre os que sobreviveram à Perdição, algumas linhagens buscaram salvação no oeste, rumo a Westeros. Outros sobreviventes, no entanto, fugiram em meio ao caos, guiando seus dragões e frotas de navios rumo ao leste, na esperança de encontrar refúgio nas antigas colônias. O destino os levou a Nova Ghis.

     Contudo, Nova Ghis era uma potência com suas próprias legiões e longas memórias. O ódio dos ghiscari pelos valirianos remetia à destruição do Antigo Império de Ghis, ocorrida séculos antes. Enquanto os senhores de dragões acampavam nos arredores da cidade, vulneráveis e desorientados, foram abordados não por emissários políticos, mas por Sacerdotisas Vermelhas da fé de R'hllor, o Senhor da Luz.

     Elas faziam parte de uma vertente da fé de ferrenhos opositores do sistema escravagista que imperava em Essos. Viram, naqueles sobreviventes desolados, uma oportunidade divina. Com palavras hábeis e visões conjuradas no fogo, os clérigos pregaram que a Perdição não havia sido um desastre natural, as servas de R'hllor pregaram que a Perdição não havia sido um desastre natural, mas sim o castigo implacável do Senhor da Luz. Valíria, disseram elas, havia sido construída e enriquecida sobre o sangue e o sofrimento de milhares de escravos nas minas subterrâneas. Assim como a Antiga Ghis fora purgada pelo fogo por seus pecados, Valíria teria encontrado o mesmo fim.

     Para provar seu ponto, as sacerdotisas apontaram para o oeste, para Westeros, um continente que não praticava a escravidão e que nunca havia sofrido uma Perdição de tamanha escala catastrófica. Abalados pela perda de sua terra natal e em busca de um propósito, os sobreviventes valirianos renunciaram às suas antigas crenças politeístas e aos costumes escravagistas de seus antepassados, abraçando as chamas do Senhor da Luz. Foi nesse período, por meio dos ensinamentos das sacerdotisas, que as antigas profecias de Asshai sobre o Príncipe que Foi Prometido — Azor Ahai — o guerreiro que empunharia a Luminífera para afastar a longa noite, deixaram de ser encaradas como lendas distantes e passaram a moldar o futuro e a servir de âncora para a nova fé daquelas famílias.

     A simpatia mútua entre os novos convertidos e o clero vermelho foi a salvação do grupo. Foram as sacerdotisas que os alertaram sobre o perigo iminente: os mestres de Nova Ghis, vendo a fraqueza momentânea de seus antigos opressores, planejavam um ataque noturno para exterminá-los e roubar seus dragões. 

     Fugir para outras Cidades Livres em Essos mostrou-se uma ideia natimorta. A presença de dragões e guerreiros valirianos causaria pânico e revolta em qualquer cidade com um exército estabelecido. Sem um lar e cercados por inimigos que viam suas bestas aladas como armas de destruição, eles tomaram uma decisão drástica: navegaram para o sul, rumo às selvas inexploradas de Sothoryos, onde poderiam recomeçar do zero e semear a fé do Senhor da Luz.

Parte 2 — O Batismo do Inferno Verde

     A pequena frota valiriana e os montadores de dragão adentraram Sothoryos pelas proximidades de Zamettar, tentando passar o mais despercebidos possível. Navegaram ao largo das ruínas de Yeen, a cidade de pedra negra considerada amaldiçoada até mesmo pelos sotorianos mais bravos. Rejeitando a mácula daquele lugar antigo, decidiram seguir ainda mais para o sul.

     Entretanto, a jornada não viria sem custos. A terra desconhecida não era amistosa com forasteiros, e alguns pereceram sob os ataques de basiliscos e de bandos de serpes (wyverns). Não fosse a artilharia de fogo dos dragões, a incursão valiriana provavelmente não teria avançado muito além de Yeen. Mesmo com a supremacia aérea, dois guerreiros caíram diante das peçonhas potentes das bestas sotorianas. E, infelizmente, o fogo dos dragões não oferecia escudo contra as doenças que abundavam no continente esmeralda.

     O Inferno Verde batizava os estrangeiros sem misericórdia. Primeiro veio um tipo de cólera violenta, seguida por febres transmitidas por mosquitos diminutos, quase invisíveis a olho nu. Todos os infantes e alguns adultos foram ceifados da vida no que pareceu um piscar de olhos, em um surto sombrio que ficou conhecido como "O Beijo do Berço Vazio". Dos cinquenta valirianos e oito dragões que haviam adentrado Sothoryos, apenas trinta sobreviventes e seis feras resistiram às pragas e aos predadores. 

     Finalmente, alcançaram um local promissor. Depararam-se com um grande rio, formado pela união de vários afluentes que desaguavam no oceano, acompanhado de um lago cristalino que trazia a promessa de pesca farta e o estabelecimento de lavouras pioneiras.  

     Lá, em uma terra aparentemente virgem e de um verde sufocante, decidiram erguer o seu primeiro assentamento, ainda sem nome. A construção exigiu o suor dos valirianos e o sopro controlado dos dragões. Eles utilizaram as chamas de suas montarias para desmatar grandes áreas da densa selva, abrindo espaço para fundações de pedra e madeira. A clareira colossal de terra queimada anunciava a chegada de novos senhores ao continente. Contudo, o clarão das chamas e o estrondo das árvores tombando chamaram a atenção do que espreitava sob o dossel esmeralda da floresta. O desmatamento repentino e a intrusão não agradaram os habitantes locais, e o Inferno Verde estava prestes a cobrar o seu preço.

Parte 3 — A Batalha da Prata e do Ébano

     Quando as chamas da clareira e a queda das árvores ecoaram pela região, a verdadeira provação dos sobreviventes começou. Diferentemente dos rústicos e temidos Homens Malhados que habitavam as costas lodosas ao norte de Sothoryos, as entranhas daquela floresta abrigavam povos isolados pelo tempo e pela densa vegetação. Das sombras da mata emergiram dezenas de etnias forjadas pelo próprio Inferno Verde: homens e mulheres de estatura imponente, força formidável e pele de tom escuro e intenso, que reluzia sob a luz como pedras de ônix resplandecentes. Seus corpos eram adornados com complexas pinturas tribais, símbolos de sua hierarquia e de sua conexão com as bestas daquela terra inóspita. E eles não marcharam sozinhos. Sob o comando desses guerreiros avançavam colossais gorilas de pelo prateado e elefantes gigantes, cujas pisadas faziam a terra tremer.

     Eram apenas três dezenas de sobreviventes valirianos contra uma força nativa massiva e as abominações da selva. O embate que se seguiu, um confronto brutal que passaria à história como "A Batalha da Prata e do Ébano", tingiu o verde da floresta de sangue e cinzas. Embora em desvantagem numérica, os valirianos possuíam a supremacia dos céus. O fogo dos seus seis dragões restantes incinerou as investidas dos gorilas, enquanto espadas de aço valiriano encontravam a força bruta dos nativos e de suas armas exóticas, adagas em formato de gancho e lanças compridas com pontas de pedra negra, embebidas em um óleo vegetal nativo altamente inflamável e ardendo em chamas vivas, em uma luta desesperada pela sobrevivência e pela soberania local.

     Apesar das perdas, o poder destrutivo de suas montarias e o fervor de sua nova fé garantiram a vitória, permitindo-lhes conquistar uma vasta área no coração da selva. Contudo, cientes de que o isolamento era sua única garantia de sobrevivência, instauraram uma política implacável: a conquista permaneceria nas sombras. Patrulhas montadas em dragões passaram a vigiar as bordas de seu novo domínio. Qualquer corsário, explorador ou nativo que ameaçasse expor o renascimento de Valíria ao resto do mundo conhecido encontrava um fim rápido e incandescente.     

Parte 4 — A Grande Reunião

     Após o fim do massacre, apenas vinte valirianos e cinco dragões restavam. Inspirados pelos relatos das sacerdotisas vermelhas sobre Westeros, a terra ocidental estruturada em linhagens nobres e livre de Perdições, os sobreviventes decidiram abandonar o antigo modelo político de seus antepassados. Para forjar um novo império e esquecer o mundo destruído que deixaram para trás, convocaram o que viria a ser conhecido como a "Grande Reunião".

     Foi neste conselho histórico, realizado sobre as cinzas da clareira recém-conquistada, que todos os alicerces da nova dinastia foram erguidos. A primeira decisão foi o batismo de sua capital. Ao reparar que os prisioneiros de guerra frequentemente murmuravam a palavra "thaalavar", os valirianos questionaram os nativos sobre o seu significado. Descobriram que o termo significava "nossa terra" no dialeto local. Assim, ao assentamento foi dado o nome de Thaalavar. Para nomear a nova família, uniram a palavra nativa ao sufixo "ryon", tradicional entre os antigos senhores de dragões, dando origem à Casa Thalavaryon. 

     Ainda durante a Reunião, o brasão de armas foi estabelecido, carregando o peso de suas novas crenças: um guerreiro empunhando uma espada em chamas, montado em um dragão, repousando sobre um escudo vermelho com bordas douradas. O escudo simbolizava a proteção absoluta de R'hllor, o Senhor da Luz. A lâmina flamejante no emblema não era uma mera alegoria; durante os combates na selva, os guerreiros valirianos ficaram maravilhados com as lanças incandescentes dos sotorianos e decidiram adotar o espesso óleo vegetal inflamável dos nativos para as suas próprias armas. Ao embeber e acender o aço valiriano, que, por sua forja mágica, suportava o calor extremo sem jamais derreter ou perder o fio, eles trouxeram a lenda à vida.

     Ver suas próprias lâminas brilharem em pleno combate foi interpretado como um sinal divino, uma confirmação palpável e gloriosa das profecias pregadas pelas sacerdotisas vermelhas. Era a representação máxima de sua simbologia: a montaria valiriana e a encarnação do guerreiro Azor Ahai. O dragão, o guerreiro, a espada flamejante e o escudo de R'hllor enalteciam tanto o poder de suas bestas aladas quanto a sua glória em nome do Senhor da Luz. Suas palavras oficiais, o lema da Casa, tornaram-se um aviso sombrio: "Justiça pelo Fogo". O ditado selava a forma implacável com que ficou decidido que tratariam quaisquer inimigos ou criminosos que ousassem ameaçá-los.

     Com a identidade simbólica definida, a "Grande Reunião" voltou-se para a questão mais volátil: as leis de comando e quem sentaria no futuro trono. A ambição ferveu, resultando em discussões acaloradas e combates entre dragões que quase custaram mais vidas à já escassa população. Para evitar a autodestruição, estabeleceu-se um rito de passagem sanguinário para a coroa: o primeiro rei seria aquele que caçasse um dos colossais gorilas de pelagem prateada e trouxesse seu crânio até Thaalavar, valendo-se apenas de sua astúcia e força, sem recorrer aos dragões.

     A regra, contudo, excluiu sumariamente as mulheres do desafio. A decisão gerou uma revolta amarga entre as guerreiras, que haviam lutado e sangrado igualmente na conquista de Thaalavar. Enquanto algumas engoliram o orgulho patriarcal, outras recusaram-se a aceitar a submissão e adentraram furtivamente a selva para participar da caçada.

     O rito ceifou a vida de vários Thalavaryons, despedaçados pela fúria incontrolável das feras. O grande guerreiro Aerly Thalavaryon, combinando estratégia astuta e rapidez letal, conseguiu abater um gorila e despontou como o provável vencedor. Contudo, ao retornar exausto a Thaalavar carregando seu troféu, Aerly encontrou o futuro local do trono já ocupado. Sentada em uma pedra de formato irregular, com uma enorme cabeça prateada gotejando sangue aos seus pés, estava uma guerreira: Laenary Thalavaryon.

Figura 1 - O mundo conhecido de "Uma Canção de Gelo e Fogo". Sothoryos na parte inferior. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/1015913628436176420/ .

Figura 2 - Sothoryos. Mapa adaptado com a inclusão de Thaalavar, entre o Inferno Verde, Rio Wryn e o Lago Nyw. A cordilheira "Alturas inescaláveis" possuia cavernas onde muitos dos dragões se abrigavam ou eram escondidos durante as revoltas. Fonte adaptada: https://br.pinterest.com/pin/763852786837375288/ .

Figura 3 - Estandarte de guerra da Casa Thalavaryon. A presença do dragão e do guerreiro Azor Ahai, empunhando a Luminífera, sob um escudo vermelho e dourado que simboliza a proteção de R'hllor, o Senhor da Luz. O lema da casa é Justiça pelo fogo.

Parte 5 — A Revolta das Vaginas

     Laenary reivindicou o direito ao governo por ter cumprido o desafio, porém, cego pelo orgulho e exausto da caçada, Aerly recusou-se a dobrar os joelhos para uma mulher. Apoiado pelos guerreiros restantes, ele contestou a vitória. O impasse verbal escalou rapidamente para as vias de fato, deflagrando um banho de sangue que os anais da história registrariam sob a alcunha crua de "A Revolta das Vaginas".

     Era o exato oposto do que a dinastia recém-nascida precisava. Uma corrosão interna, que colocou valiriano contra valiriano, dragão contra dragão. A vantagem tática, no entanto, pendia fortemente para o lado matriarcal. As mulheres não apenas eram maioria, mas também estavam fisicamente mais íntegras e descansadas, uma vez que a exclusão da caçada as havia poupado de ferimentos e da exaustão infligidos pelos gorilas. 

     A tragédia culminou na luta derradeira entre Aerly e Laenary, uma disputa fervorosa que manchou os céus e a terra de Thaalavar. A coroa foi decidida no fogo. Nos ares enegrecidos pela fumaça, Armagon, o colossal dragão de Laenary, estraçalhou Hellaggron, a temida montaria de Aerly. Sem seu dragão e encurralado no solo, o guerreiro encontrou um fim brutal, sendo violentamente esmagado pelas garras de Armaggon.

     Quando a poeira e as cinzas se assentaram, as guerreiras emergiram vitoriosas. O custo, no entanto, foi quase irreparável: dos trinta sobreviventes que haviam chegado à clareira, apenas catorze permaneceram respirando. O massacre deixou doze mulheres e meros dois homens vivos.

     Caminhando sobre os corpos de seus opositores, Laenary Thalavaryon foi coroada a primeira rainha de Thaalavar. Visando alguma estabilidade política, ela tomou um dos dois sobreviventes, Beldon Thalavaryon, como seu marido e rei consorte. Contudo, o poder absoluto residia apenas nas mãos dela, quebrando de vez as tradições patriarcais de sucessão e instaurando uma nova era.

     O outro homem poupado da carnificina, Marden Thalavaryon, recebeu uma incumbência vital — e inusitada — para a sobrevivência da Casa. Tornou-se o responsável exclusivo por engravidar as outras guerreiras, com a missão de aumentar o tamanho da dinastia e manter a homogeneidade sagrada dos traços valirianos. Pelos séculos que se seguiram, a história jamais o lembraria por suas habilidades com a espada, mas sim pelo curioso título que carregou até o fim de seus dias: "Marden, o Sortudo".

     As onze guerreiras restantes, no entanto, não limitaram suas linhagens apenas ao sangue de Marden. Elas acabaram por tomar guerreiros sotorianos amansados como amantes. Dessas uniões nasceram crianças de sangue misto, cujos traços rompiam drasticamente com a herança platinada da Antiga Valíria, mas que exibiam uma beleza formidável e exótica. Ostentavam cabelos, quer fossem lisos, quer fossem em cascatas cacheadas, em vibrantes tons de âmbar, olhos de um mel claro e penetrante, e a pele em um majestoso tom bronzeado.

     A princípio, essa miscigenação foi vista com amargor, uma concessão indesejada que feria os planos iniciais de pureza dinástica. Contudo, provou-se uma solução inevitável e uma verdadeira salvação para a Casa Thalavaryon. A infusão do sangue nativo trouxe o vigor necessário para que a nova geração resistisse às implacáveis pragas endêmicas de Sothoryos, servindo também como a única barreira viável contra a loucura e as deformidades que a severa consanguinidade ameaçaria impor à escassa população fundadora.

Capítulo 2 - O primeiro reinado e o Trono de Pedra

Parte 1 — O Trono de Pedra

     Laenary e Beldon conseguiram, a duras penas, consolidar um assentamento próspero. O epicentro desse novo poder foi erguido exatamente sobre a pedra bruta onde a rainha havia depositado o crânio do gorila prateado. O monólito irregular foi brutalmente lapidado até assumir a forma de um assento imponente e, em seguida, adornado com os ossos dos dragões e das colossais feras que haviam perecido na conquista. Assim nasceu o assustador Trono de Pedra. Ao seu redor, uma verdadeira fortaleza começou a tomar forma, ladeada por dezenas de casas de madeira de lei sotoriana, erguidas para abrigar a elite valiriana e a população nativa e mestiça que não parava de crescer.

     Dominando a paisagem ao lado da fortaleza, os senhores de dragões ergueram um suntuoso templo dedicado ao Senhor da Luz, cujas imensas fogueiras ardiam ininterruptamente. O santuário tornou-se o coração espiritual de Thaalavar, servindo tanto para a veneração fervorosa de R'hllor quanto como um poderoso instrumento de controle. Era ali que ocorriam as conversões, muitas vezes forçadas e motivadas pelo medo das chamas, dos nativos que se aproximavam em busca de paz ou das tribos que vinham negociar com a coroa.

     As entranhas da selva logo revelaram seus tesouros: ouro e pedras preciosas começaram a ser descobertos em abundância. Para extraí-los, os Thalavaryons dependiam da força braçal dos nativos e dos nascidos da miscigenação. Contudo, assombrados pela crença, pregada pelas sacerdotisas vermelhas, de que a Perdição de Valíria fora um castigo divino contra o império escravagista, os senhores de Thaalavar proibiram a escravidão formal. Temiam que o Deus Vermelho também fizesse Thaalavar ser engolida pelas chamas.

     Na prática, porém, instauraram uma servidão velada. Sob a ameaça silenciosa do fogo dos dragões e do fio de aço valiriano, os trabalhadores eram mantidos nas minas e nas lavouras por meio de um sistema predatório de vassalagem. Em troca de seu suor escruciante, recebiam apenas escambos injustos, ninharias sem valor e a chamada "proteção da coroa". Em contrapartida, foi dessa proximidade forçada e das conversões no templo que os valirianos extraíram o vasto conhecimento botânico local, descobrindo poções e unguentos exóticos cruciais para tratar as enfermidades que os assolavam nos primeiros anos.

     Apesar da exploração, o reinado de Laenary e Beldon foi notavelmente pacífico e próspero diante do que já havia acontecido. A rainha encontrou seu fim por volta dos cinquenta anos. Já distante do vigor de suas vinte e quatro primaveras, idade com a qual havia desembarcado em Sothoryos, Laenary sucumbiu a uma das piores moléstias do continente: a Chaga do Inferno Verde. A terrível doença, causada por parasitas insidiosos e transmitida pelos mosquitos autóctones da floresta úmida, corroeu a saúde da monarca até o seu último suspiro.

     Beldon governou sozinho por mais alguns anos antes de ser levado à cova pela mesma doença implacável. O rei consorte e a rainha deixaram quatro frutos de sua união: dois meninos e duas meninas gêmeas. O primogênito legítimo era Rylan Thalavaryon, um jovem de vinte e um anos, que assumiu automaticamente o direito de herdar o Trono de Pedra.

     Entretanto, o reinado de Rylan já nascia sob a sombra de um segredo. Antes mesmo da concepção do herdeiro legítimo, Beldon havia se deitado com uma sotoriana nativa chamada Ka-magga. Desse romance fortuito nascera um filho bastardo. A traição fora guardada a sete chaves de Laenary durante toda a sua vida, mas o garoto, batizado como Amadi, sempre soube quem era seu verdadeiro pai através dos sussurros de sua mãe. Quando Beldon deu seu último suspiro, Amadi já era um homem feito de vinte e dois anos, mais velho que o novo rei, e perfeitamente ciente de que também carregava o sangue do dragão.

Parte 2 — A Insurreição dos Mestiços

     Amadi Leaf — o sobrenome dado aos bastardos nascidos sob a sombra do Inferno Verde — não estava disposto a viver à margem da história. Quando as chamas das piras funerárias de Beldon ainda ardiam, o jovem decidiu reivindicar o Trono de Pedra. Sua ousadia poderia ter sido o seu fim, não fosse por um detalhe demográfico crucial: com o passar das décadas, a miscigenação havia se espalhado. A grande maioria dos ramos secundários da família Thalavaryon e da população da cidade já era composta por mestiços, que viram em Amadi a chance de tomar o poder. Assim eclodiu a "Insurreição dos Mestiços".

     A força militar dessa revolta baseava-se em uma aliança formidável e inusitada. Com raras exceções, o sangue misto havia diluído a capacidade de conexão valiriana com os dragões. Em contrapartida, os mestiços, que viviam mais próximos da plebe e do trabalho nas selvas, forjaram uma forte ligação com as feras nativas de Sothoryos. Eles libertaram os colossais gorilas de pelagem prateada, antes mantidos acorrentados como bestas de guerra e como carga pelos puros-sangues, e os transformaram em seus aliados leais. 

     A disputa pelo poder culminou não em uma grande guerra entre exércitos, mas em um desafio antigo. Amadi e seu meio-irmão, o rei legítimo Rylan, enfrentaram-se em um combate corpo a corpo brutal, já que o monarca ainda não havia se conectado a nenhum dragão e estava desprovido dessa vantagem. O bastardo sagrou-se vitorioso, dilacerando o pescoço de Rylan com uma adaga jile, comum entre os nativos, e assumindo o assento no Trono de Pedra. Dotado de uma beleza formidável e exótica, Amadi revelou-se um monarca altamente prolífico, gerando dezenas de filhos e filhas. Em seus primeiros decretos, mudou radicalmente as leis do reino: revogou o sistema patriarcal, permitindo que as filhas primogênitas herdassem o trono, e aboliu os nomes de bastardia, legitimando todos os Leaf como verdadeiros Thalavaryons.

     Entretanto, o novo rei estava longe de ser apenas um reformador benevolente. Amadi nutria um profundo rancor pelo passado, lembrando-se de quantos de seus pares mestiços e aliados gorilas haviam sido incinerados pelos senhores de dragões. Com a coroa na cabeça, ele decidiu garantir que os céus nunca mais ameaçassem o seu reinado.

     Em segredo, Amadi ordenou ao seu novo alquimista-chefe que preparasse uma toxina devastadora. Na calada da noite, o veneno foi despejado nas águas cristalinas do Lago Nyw, o principal bebedouro das montarias valirianas. O resultado foi um cataclismo dracônico. Praticamente todos os dragões de Thaalavar pereceram, vomitando sangue e fogo negro pelas margens do lago. Alguns sobreviveram e foram mantidos em segredo pela alta corte Thalavaryan que se mantinha sem mestiçagem para não perder os traços valirianos. 

     Esse ato sombrio rendeu ao monarca a temida alcunha de "Amadi, o Matador de Dragões", mesmo que não tivesse cruzado espadas com uma única fera.

     A ascensão de um rei de sangue misto ao Trono de Pedra fora um golpe amargo que a elite dos puros-sangues Thalavaryon engoliu a contragosto para evitar sua própria extinção. Contudo, o extermínio traiçoeiro de suas bestas sagradas era uma blasfêmia imperdoável. O que Amadi não sabia era que, apesar de ter quase limpado os céus, as entranhas da fortaleza ainda escondiam segredos. Inúmeros ovos de dragão — alguns petrificados trazidos da própria Valíria, e outros recém-botados nas cavernas quentes de Sothoryos — haviam sido escondidos e protegidos pela facção purista. A semente da vingança já estava plantada.

Parte 3 — A Revolta dos Sangue-Puro

     O reinado de Amadi e sua corte de sangue misto perdurou por décadas, uma era de estabilidade aparente que apenas mascarava a tempestade que se avolumava nas sombras. A facção dos puro-sangue, que preservou ferozmente a homogeneidade de seus traços valirianos através do isolamento e do casamento consanguíneo, jamais esqueceu a traição do Lago Nyw. Eles planejaram a sua retomada de poder com a paciência das pedras.

     Longe dos olhos do Trono de Pedra, nas profundezas ocultas das cavernas quentes de Sothoryos, eles utilizaram o calor geotérmico e as chamas do templo de R'hllor para chocar os ovos de dragão que haviam contrabandeado. Alimentaram o crescimento dessas novas feras em absoluto segredo, enquanto sua própria prole platinada se multiplicava, nutrida por histórias de vingança e glória usurpada.

     Quando a hora soou e os céus puderam ser dominados novamente, a paz foi estilhaçada pela "Revolta dos Sangue-Puro". Liderados por Vaenys Thalavaryon, o filho vingativo do falecido rei Rylan, os valirianos não impuseram um cerco diplomático; orquestraram um massacre. Montados em seus novos dragões, que cresciam mais rapidamente no clima de Sothoryos, perpetraram o assassinato sistemático de quase todos os filhos e filhas de Amadi. O poder dinástico dos mestiços foi reduzido a cinzas da noite para o dia.

     Coroado sobre os escombros e o sangue de seus inimigos, Vaenys assumiu o Trono de Pedra ao lado de sua esposa e rainha, Haerla Thalavaryon. Juntos, não perderam tempo em apagar o legado progressista do Matador de Dragões. Revogaram imediatamente as leis de legitimação, condenando todos os não nascidos de casamentos oficiais a carregarem novamente a mácula do sobrenome Leaf. Em seguida, implementaram a rígida linha de sucessão patriarcal dos lordes de Westeros: dali em diante, apenas os homens teriam o direito de sentar no trono.

     Para garantir que a coroa jamais fosse contestada novamente, o casal real iniciou um expurgo de proporções aterrorizantes, eternizado nos anais históricos como "A Desgraça dos Impuros". Praticamente todos os mestiços de Sothoryos que possuíam riqueza, influência militar ou a mais remota gota de sangue de dragão foram caçados e eliminados pelas chamas.

     Dizem os rumores que uma minoria desesperada conseguiu fugir do continente esmeralda, embarcando clandestinamente para as Cidades Livres de Essos, onde mudaram de rosto e de nome para nunca mais serem encontrados. Os poucos que restaram na terra natal embrenharam-se nas densas selvas ao sul, condenados a viver como plebeus intocáveis em pequenos e miseráveis vilarejos.

     Banhado no fogo da intolerância, o domínio de Vaenys e Haerla, ironicamente, atingiu o seu objetivo. Muitas gerações se sucederam sob as leis severas que o casal impôs, e uma longa era de paz — a inquebrável paz dos túmulos — instaurou-se em Thaalavar. Sem nenhum mestiço remanescente na linha sucessória e sem rebeldes com força suficiente para incitar uma nova revolta, a Casa Thalavaryon finalmente desfrutou da supremacia absoluta que seus fundadores haviam sonhado ao pisar no Inferno Verde.

Capítulo 3 - O Rei de Tudo e de Todos

Parte 1 — A semente do Conquistador

     Próximo ao colapso da dinastia Targaryen em Westeros e ao nascimento da princesa Daenerys, o Trono de Pedra em Sothoryos era ocupado por Aerlo II. Seu reinado, no entanto, foi marcado por uma tragédia biológica sem precedentes. Uma enfermidade gravíssima, batizada pelos sacerdotes como 'Raiva dos Dragões', espalhou-se de forma letal entre as montarias da Casa Thalavaryon. A doença enlouquecia as feras antes de matá-las em profunda agonia, reduzindo drasticamente a população alada de Thaalavar.

     Quando o rei Aerlo II faleceu, o fardo da coroa recaiu sobre seu primogênito, Vaenys III. No entanto, Vaenys possuía o espírito de um aventureiro indomável e abominava a ideia de passar a vida confinado nas selvas de Sothoryos. Abdicando de seus deveres, ele desertou para o continente de Essos, levando consigo a maior das fortunas: três ovos de dragão empedrados pelo tempo. Para financiar sua vida de viagens e luxos do outro lado do mar, o príncipe exilado acabou vendendo as relíquias para mercadores riquíssimos.

     Ao longo dos anos, os ovos trocaram de mãos no mercado negro de Essos, sua verdadeira origem valiriana ofuscada por lendas mercantis. Por fim, acabaram nos cofres abastados de Illyrio Mopatis, um Magíster da Cidade Livre de Pentos. Mentindo que as pedras preciosas haviam sido encontradas nas exóticas Terras da Sombra além de Asshai, Illyrio os daria como presente de casamento a Khal Drogo e sua jovem esposa, Daenerys Targaryen. Anos mais tarde, no ápice do desespero, Daenerys entraria em uma pira funerária com essas três heranças de Thaalavar, chocando-as pelo fogo e sangue para dar origem a Drogon, Viserion e Rhaegal.

     Enquanto isso, em Sothoryos, o exílio de Vaenys III forçou o Trono de Pedra a passar para o segundo filho mais velho de Aerlo II: Haermon I Thalavaryon. Seu reinado estendeu-se por algumas décadas, uma era melancólica marcada pela rara e escassa presença de dragões nos céus de Thaalavar.

     Haermon I teve dois filhos homens, Haermon II e Gustaef. Desde que eram pequenos, o rei sussurrava para eles uma grandiosa profecia revelada pelas chamas do templo de R'hllor. A visão declarava que o anonimato da Casa tinha os dias contados, e que um de seus descendentes se ergueria para ser o grande unificador dos continentes — o 'Rei de Tudo e de Todos'. Os dois príncipes cresceram com essa semente de ambição plantada no peito, ambos acreditando que o mundo lhes pertencia por direito divino.

     Com a morte do pai, a sede por expansão falou mais alto do que a sucessão pacífica. Haermon II era o herdeiro legítimo, mas Gustaef, dez anos mais jovem, possuía o fogo de um verdadeiro conquistador e estava decidido a liderar as frotas de Thaalavar para fora do isolamento. A disputa pela coroa inevitavelmente culminou em um combate sangrento entre os dois irmãos.

     Gustaef não apenas provou ser um guerreiro muito mais habilidoso, como também guardava uma vantagem insuperável. Ele havia forjado uma conexão profunda com um dos últimos dragões sobreviventes de Thaalavar: a formidável besta chamada Haddron. Quando as chamas de Haddron iluminaram o campo de batalha, o medo paralisou Haermon II, que cedeu e iniciou uma retirada.

     Ao contrário dos sangrentos reis do passado, Gustaef optou pela misericórdia. O amor fraternal que ainda partilhavam fez com que ele poupasse a vida de seu irmão mais velho, permitindo que Haermon II fugisse em exílio com sua honra intacta.

     Vitorioso, ele sentou-se no Trono de Pedra como Gustaef Thalavaryon, Primeiro de Seu Nome. Com o continente esmeralda sob seu domínio e o fogo de Haddron ao seu lado, o novo rei finalmente voltou seus olhos violeta para os mapas antigos, iniciando os planos de expansão que prometiam fazer o resto do mundo conhecido curvar-se perante o sangue esquecido de Valíria.

Simbologia

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